''O Supremo
Tribunal Federal está ouvindo argumentos a favor e contra a descriminalização
do aborto voluntário
até a 12ª semana de gestação.
Na Folha de
29/6: de 2008 a 2017, no Brasil, 2,1 milhões de mulheres foram internadas por
complicações de abortos clandestinos. O custo para o SUS foi de R$ 486 milhões. Que o
leitor calcule o custo da morte, do desespero e do desamparo dessas mulheres.
Essa
realidade à parte, tento resumir minha posição:
1.
Ninguém é "a favor" do aborto —só se discute para decidir se ele tem
que ser considerado um crime ou não;
2. Para
alguns, o aborto é um crime contra a vida do feto. Para outros, a interdição do
aborto é um crime contra a vida da mulher que engravidou contra sua vontade. Um
aborto deixa cicatrizes psíquicas dolorosas na mulher que abortou, mas uma
gravidez indesejada e levada obrigatoriamente a termo também deixa cicatrizes
dolorosas —na mulher e no seu rebento.
3. A
partir de quando há vida (e, para os religiosos, alma)? Para permitir a
fecundação in vitro, decidimos que o embrião inicial não é um ser completo e
pode ser descartado. A 12ª semana de gestação é o limite aceito nos países onde
o aborto voluntário não é crime: tempo suficiente para a mulher descobrir que
está grávida e que não deseja ter filhos (não naquele momento ou não com aquele
pai).
4. Quem
"defende a vida" deve se lembrar que estão em jogo aqui duas vidas: a
do feto e a da mulher que engravidou.
INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
1 O AUTOR, AINDA QUE NÃO SE POSICIONE, CLARAMENTE, A
FAVOR DA DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO, DEIXA NAS ENTRELINHAS QUE É FAVOR, SIM. JUSTIFIQUE TAL POSICIONAMENTO, EM UM PARÁGRAFO, USANDO UM ARGUMENTO. FAÇA ADAPTAÇÕES NECESSÁRIAS.
CUIDE DAS CORRELAÇÕES VERBAIS.
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CUIDE DAS CORRELAÇÕES VERBAIS.
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Nesta altura da
conversa, se não antes, sempre alguém comenta: "Ela devia ter pensado nas
consequências antes de transar".
É bom, porque isso
me leva imediatamente ao que mais me importa dizer hoje sobre a questão do
aborto.
Declaro-me impedido
de opinar sobre esse assunto. E acho que qualquer pessoa honesta e instruída
deveria se declarar impedida de opinar sobre o assunto: todos impedidos, salvo
as mulheres que abortaram ou que estão atualmente procurando um aborto.
Cuidado: não acho
que, em geral, só devam legislar as pessoas interessadas na legalização de seus
atos passados ou iminentes. Nada disso.
Mas o fato
incontestável, no caso do aborto, é que todos, homens e mulheres, há 2.800
anos, absorvemos uma cultura que situa na mulher e no seu desejo a origem do
mal, do pecado e da tentação —começou na mitologia grega, com a figura de
Pandora, e piorou com a de Eva, na Bíblia judaico-cristã.
Em relação ao desejo feminino, nossa cultura adota
várias estratégias de defesa.
Negamos que esse desejo exista e preferiríamos que
a mulher se expressasse só na maternidade (sonhamos com uma mãe virgem, e
qualquer maternidade nos parece "santa" porque "justifica"
a nossa lubricidade ( DESEJO ERÓTICO) —transamos, mas, veja bem, foi para procriar).
Paradoxalmente, para ilustrar a luxúria e sua
punição no inferno, a figura que nossa cultura usa é quase sempre feminina. E a
luxúria sequer é o fruto da relação da mulher com um homem, mas da mulher com
um diabo (como no famoso tríptico "A Luxúria", de Bruegel, o Velho,
1538).
O desejo feminino, caso ele se manifeste, é
responsável por nossa própria lubricidade, pois a mulher nos tenta —como o
demônio.
Precisamos controlar o desejo feminino —pense na
fantasia masculina trivial (BÁSICA,SIMPLES) de ser aquele que "sabe" fazer gozar as
mulheres, quanto, quando e como ele quiser.
Se não conseguirmos controlar o desejo feminino,
precisamos reprimi-lo: os homens de nossa cultura inventaram sua
"inocência" violentando, torturando e assassinando centenas de
milhares de mulheres "incontroláveis". Como teria dito Adão: não fui
eu, "foi a mulher que me deste por companheira".
Em 2016-17, em Paris, houve uma linda exposição da
qual me chegou o catálogo: "Présumées Coupables", presumidas
culpadas. Em tese, os humanos são inocentes até prova do contrário, mas as
mulheres são CULPADAS até prova do contrário —pois, de partida, elas são a
encarnação do mal.
A exposição de Paris propunha centenas de originais
de processos contra mulheres —de Joana d'Arc até as criminosas célebres dos
séculos 19 e 20. Desfilavam assim as figuras canônicas do desejo feminino
culpado: a encantadora, a maléfica, a sedutora e, claro, a infanticida.
Moldados por um ódio plurimilenar ao desejo sexual
feminino, que quisemos exorcizar e controlar pela maternidade, como teríamos
legitimidade para opinar sobre a criminalização ou não do aborto? Por pudor,
meus amigos, declarem-se impedidos.
INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
O autor considera que ninguém deveria, de fato, ter
capacidade para legislar sobre o aborto.
Exponha, em um parágrafo, o (s) argumento (s) por meio
dos quais ele justifica esse
posicionamento.
FAÇA ADAPTAÇÕES NECESSÁRIAS PARA QUE SEU TEXTO FIQUE COESO E CLARO.
CUIDE DAS CORRELAÇÕES VERBAIS.
FAÇA ADAPTAÇÕES NECESSÁRIAS PARA QUE SEU TEXTO FIQUE COESO E CLARO.
CUIDE DAS CORRELAÇÕES VERBAIS.
Contardo Calligarishttps://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2018/08/a-questao-do-aborto.shtml
Psicanalista, autor de “Hello, Brasil!” e criador
da série PSI (HBO

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