DISSOLUÇÃO
Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.
E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.
Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?
E nem destaco minha pele
da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.
E aquele agressivo espírito
que o dia carreia consigo,
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.
Vai durar mil anos, ou
extinguir-se na cor do galo?
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.
Imaginação, falsa demente,
já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.
INTERPRETAÇÃO DO POEMA E CLASSIFICAÇÃO SINTÁTICA E MORFOLÓGICA
O poeta vê que o dia acaba e resolve não acender a luz. Percebamos que
nesse primeiro momento a palavra noite tem o sentido denotativo de NOITE mesmo.
Mas é a partir dela que a claridade do poema se abre e vai surgindo outra ordem
de interpretações.
Chegou a noite e o poeta põe-se a pensar sobre várias coisas.
1ª estrofe
Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.
Vamos analisar sintaticamente o
trecho:
E não me seduz/ tatear sequer uma lâmpada.
Percebamos que na ordem direta isto fica assim:
Tatear sequer uma lâmpada não me seduz.
O sujeito, aí, oração subordinada substantiva subjetiva,
é “tatear sequer uma lâmpada.
O ato de acender a lâmpada não seduz o poeta. Ele quer ficar no escuro (é bom ficar um tempo no escuro não acha?) pois não tem vontade ( seduz) acender a lâmpada.
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Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.
Colocando em ordem direta
Aprouve ao dia/ findar
Agradou ao dia acabar.
Findar é sujeito de não aprouve ( não agradou) ao dia.
Temos a personificação do dia, ele, pessoa, teve vontade de acabar.
“Findar’ é oração subordinada substantiva subjetiva.
Percebamos que neste poema há muitas inversões e para entendê-lo temos
de inverter palavras.
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E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.
O poeta aceita a noite aí no sentido um ( quase denotativo, noite é
noite mesmo) que de um abre-se para o dois.
O poeta no escuro aceita duas situações
1 no escuro as formas, os objetos da sala ou quarto onde está começa a
perder a forma normal que se pode enxergar durante o dia. No escuro as formas
vão mudando. Imagine que um vaso, quando chega a noite, pode parecer uma outra
forma, talvez a de uma cabeça de cavalo, talvez uma taça.
Mas a UMA ORDEM OUTRA DE SERES 2 pode ser interpretada com outro sentido, o que aponta para a reflexão de NOITE, momento tenso de escuridão, de hora
em que outra situação de vida surge. Ele envelhece e parece que nada na sua vida deu muito certo.
A situação é meio depressiva, pois o poeta começa a analisar palavra a palavra esse momento de noite ( lá fora vista pela janela) e noite ( terror duma vida que termina e nao tem mais esperanças).
A situação é meio depressiva, pois o poeta começa a analisar palavra a palavra esse momento de noite ( lá fora vista pela janela) e noite ( terror duma vida que termina e nao tem mais esperanças).
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'Braços cruzados' – trecho solto, sem nexo sintático, aos moldes do
modernismo. Percebamos que o poeta, ainda que seja escrito este texto em moldes clássicos, apresenta as conquistas libertárias do modernismo. Uma delas são os termos
soltos, sem conexão sintática.
Braços cruzados aponta o sentido de passividade. ''Que venha tudo que eu
percebo de escuridão, seja a da noite que surge no quarto sem
luz, seja a noite da minha vida, eu, sem esperança.
Percebamos que o velho poeta está bem deprê. Mas a poesia dele é maravilhosa até na deprê.
Percebamos que o velho poeta está bem deprê. Mas a poesia dele é maravilhosa até na deprê.
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Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?
Nesse trecho o poeta solta-se da sintaxe das estrofes anteriores e faz
um corte drástico, aos moldes modernistas, passando para o passado de
reminiscências. E se vê jovem, será que era gato? Encontra-se jovem num tempo de amar, num tempo subjetivo e
vazio.
*
*
Faz um corte desse momento subjetivo e joga seu coração para o céu. Olha o si e olha o lá, o coração e o universo infinito.
E estabelece uma relação comparativa em que expõe que o amor é menor que o céu ( vasto).
E estabelece uma relação comparativa em que expõe que o amor é menor que o céu ( vasto).
E olha o céu e percebe que o pequeno homem, com seus minúsculos
sentires é nada frente às povoações que surgem.
Reparemos que a palavra "povoações" indica tanto os vultos da escuridão
onde ele se encontra (no quarto ou sala); quanto os milhares de planetas
soltos no universo.
Decerto coçou a cabeça para saber se habitava algum lugar. Vale lembrar que em outros poemas ele sempre se mostrava deslocado de tudo, era gauche ( estranho, diferente).
Um texto lírico não é a vida do poeta mas pode refleti-la.
Decerto coçou a cabeça para saber se habitava algum lugar. Vale lembrar que em outros poemas ele sempre se mostrava deslocado de tudo, era gauche ( estranho, diferente).
Um texto lírico não é a vida do poeta mas pode refleti-la.
A pergunta: 'HABITO alguma?" revela o desejo de saber se há importância da
vida dele frente ao grande universo; mas também frente à sociedade onde sempre
se sentiu um lobo solitário.
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